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Um marco para a nação brasileira

É isso que significa o Marco Civil da Internet Brasileira, que teve o processo de construção iniciado hoje com um evento na FGV do Rio. Este evento foi apresentado ao vivo por um stream de vídeo pela internet e teve um acompanhamento em tempo real via Twitter. Aliás, a união das duas ferramentas provou-se uma maneira fantástica de ampliar o acesso a um evento.

Este evento é um marco para toda a nação porque pela primeira vez será realizado a construção de um projeto de lei não apenas com a consulta popular, mas de forma completamente colaborativa. Além disso, esta iniciativa do Ministério da Justiça é uma prova contundente do poder que a manifestação civil tem para a construção do Brasil. Como foi reconhecido pelos próprios membros do governo, o barulho gerado em torno do PL Azeredo, mesmo que predominantemente pela internet, foi determinante para o recuo do governo e para a inversão do processo. Agora em vez de partirem da criminalização e vigilância da internet, partirão dos direitos que todo o cidadão deve ter, incluído privacidade e o direito ao anonimato.

Porém, apesar de a criação desse processo ser uma grande vitória para a sociedade civil brasileira, a guerra ainda não está vencida. Pôde-se notar que a própria visão da sociedade ainda é contraditória, especialmente de pessoas ligada à disciplina do Direito. Algumas pessoas parecem esquecer o nome no diploma que carregam e em vez de defender os direitos, concentram-se apenas numa visão criminal e punitiva, fazendo assim com que todo e qualquer um seja tratado como um infrator da lei, cerceando suas liberdades.

Agora cabe a nós fazer uso dessa oportunidade para construir algo que seja do verdadeiro interesse da sociedade brasileira. Garantiremos assim os direitos da nossa vida digital e principalmente defenderemos a nossa própria produção cultural perante aos interesses predatórios da grande indústria cultural internacional. Temos a chance de lutar também por um enfraquecimento e uma rediscussão das leis de propriedade intelectual, que favorecem apenas os intermediários, em vez dos verdadeiros produtores. O sucesso desse processo colaborativo abrirá precedentes para que outras leis sejam construídas dessa forma e assim será dado mais um passo em direção à silenciosa revolução que mencionei neste post. A sua participação é muito importante.

Domesticando humanos

Seguindo a recomendação do Seth Godin, fui escutar um podcast do Radiolab com o título de New Normal?. Este podcast, dividido em três partes, tem um início e um fim muito interessante. Todo o episodio é construído sobre o questionamento do jeito que nós somos hoje ter possibilidade de ser diferente no futuro. E para ilustrar isso, eles fazem a seguinte pergunta nas ruas: algum dia, nós iremos parar de lutar guerras?

O que obtiveram como resposta foi o que todos esperávamos. Nove a cada dez entrevistados responderam com um decidido não. O argumento? Simplesmente essa é a natureza humana. Talvez seja, mas será que isso significa que é imutável? Jad Abumrad e Robert Krulwich trazem três exemplos que mostram que comportamentos dados como certos e previsíveis as vezes podem mudar. Primeiro falam de um grupo de babuínos, que ao perderem os machos alfa criaram uma sociedade pacífica que se mantém por mais de 20 anos, o que é surpreendente pois são animais conhecidamente violentos. O segundo exemplo é de uma cidadezinha norte-americana pequena e conservadora eleger um prefeito transexual e espontaneamente defende-lo ao sofrerem com protestos de pessoas vindas de fora da cidade. Por fim, o terceiro e mais interessante exemplo é sobre um geneticista soviético que começou a domesticar raposas.

Após 10 anos seletivamente cruzando as raposas, Dmitri Belyaev conseguiu torna-las tão dóceis quanto um filhote de cachorro. O método escolhido por Dmitri era permitir
que as raposas jovens que não demonstravam medo da sua presença fossem utilizadas para reprodução, enquanto as que demonstravam medo eram utilizadas para a produção de pele. Porém, após estes 10 anos, ele notou que as raposas não estavam apenas mais dóceis, mas também sofreram mutações físicas. Seus dentes ficaram menores, os ossos mais finos e as orelhas caídas, além de algumas outras alterações. Ninguém sabe ao certo o que causou essas modificações, mas uma das hipóteses é a de que a mesma célula que, durante a fase embrionária, é responsável por criar a resposta ao medo, é também responsável por estas outras características.

Com isso, um cientista de Harvard chamado Richard Wrangham, sugere que os humanos estejam sofrendo uma domesticação semelhante. Ao nos compararmos com outras espécies de hominídeos, nos destacamos pelo tamanho menor dos dentes. Além disso, a forma como nos unimos em sociedade desfavorece o comportamento violento, pois a violência nos afasta dos outros, enquanto que em grupo podemos ser muito mais fortes e prósperos. Isto faria com que pessoas com tendências violentas sejam cada vez menos propensas a conseguirem reproduzir, conduzindo a humanidade para sociedades progressivamente mais pacíficas.

Tudo isso é apenas teoria e hipóteses não comprovadas, mas não deixam de fazer sentido. Agora eu me pergunto se essa facilidade de comunicação e de troca de conhecimento a nível mundial que temos hoje não poderia contribuir para elevar essa condição de indivíduos para grupos ou nações inteiras e então acelerar esse silencioso processo de pacificação? Até algumas horas atrás eu estaria entre os 90% que responderam negativamente à pergunta do início desse texto, mas agora eu já não tenho certeza. Talvez haja esperança.

A próxima revolução será brasileira

Olhando para trás, na história, nunca fomos estáticos. O progresso e a transformação são inerentes ao ser humano. Por isso não é surpreendente que durante a nossa história, tivemos várias formas de governos e organizações sociais. Teocracias, monarquias, parlamentarismo, ditaduras, fascismo, comunismo e a democracia representativa são alguns deles.

O que todas essas formas de governo têm em comum é que cada uma teve um período em que várias nações adotaram simultaneamente. Apesar de umas terem provado serem melhores do que as outras, nenhuma provou ser definitiva. Atualmente, a democracia representativa é forma predominante e, especialmente durante um período pós-ditaduras, foi considerado um modelo ideal pelo povo que vive nela.

A realidade hoje começa a mudar, pois os problema da democracia representativa começam a ficar aparentes. A confiança em políticos está caindo no mundo todo. Para provar isto, recomendo um exercício rápido: use o tradutor do google para traduzir as palavras político, baixa e confiança para qualquer língua e depois faça uma busca com as palavras referentes a político e confiança. Agora conte a frequência que a palavra referente a baixa, ou alguma variação dela, aparece nos títulos. No Brasil, o nível de confiança é tão baixo que a própria palavra política já perdeu o seu sentido. Tudo que é associado a essa palavra perde valor. Está chegando a hora de tentarmos um sistema novo.

O Brasil está se tornando um dos terrenos mais férteis no cenário mundial para que um novo sistema de governo seja implantado. O primeiro argumento para defender esta visão é a própria falta de confiança nos políticos, que predomina com razão na opinião brasileira. Esta falta de confiança estimula que o povo apóie qualquer iniciativa plausível de alterar o sistema político.

Além disso, o Brasil é um país com uma maioria jovem, que hoje estão se tornando uma maioria adulta. Esta nova geração que está começando a assumir a produção do Brasil é a mesma geração digital, que chega com valores e idéias diferentes. É, principalmente, uma geração conectada. Isto permite que aprendam, que se comuniquem e se organizem de uma maneira nunca vista antes.

O Brasil é também um país com uma estrutura política estável e internacionalmente respeitada. Como o recente caso Honduras provou, o Brasil começa a gradualmente aceitar menos a influência estrangeira direta (representada especialmente pelos E.U.A.) e ao mesmo tempo começa a se impor no cenário mundial, exigindo posições na O.N.U. e em negociações do G8 dignos de sua grandeza. Apesar de parecer contraditório, essa estabilidade é uma vantagem pois permite que uma revolução seja feita pacífica e gradualmente, o que seria algo inédito, já que até então todas as grandes mudanças foram armadas. Também, ao contrário de países como o Irã, que estão passando por crises políticas, no Brasil temos algo concreto (e, pode-se dizer também, estático) para mudar, o que acaba sendo outra vantagem. Por fim, este bom momento brasileiro, premiado com a vinda das Olimpíadas, aumenta a auto-estima do povo, fazendo com que acredite no país e que sinta-se motivado para transforma-lo em algo ainda melhor.

Se você, assim como eu, acredita em um país melhor, não perca tempo, pois a revolução já começou. Coletivos estão se formando e as pessoas estão agindo. Alguns exemplos são o projeto Esfera, que promoveram o Transparência Hackday; o Parlamento Aberto e o Congresso Aberto, que buscam aumentar a transparência política; e o Partido Pirata Brasileiro, que está começando a se organizar aqui no país para trazer a política para a era da internet. Todos estes projetos estão abertos a sua participação, e um bom começo é entrar nas listas de email que você encontra nos sites. Pense em como você pode ajudar na sua cidade ou no seu bairro. Que tal começar a mudar as coisas?

Blogs não são sinônimo de amadorismo

Acabo de ler esta notícia do The Business Insider (via @dtapscott) com o título Obama: We Need To Bail Out Newspapers Or Blogs Will Run The World. Em resumo, o Obama quer injetar dinheiro do governo nos jornais tradicionais, pois prevê que sem este apoio os blogs irão tomar conta e teme que o “amadorismo” dos blogs possam prejudicar a qualidade das informações.

Esse discurso de medo, encabeçado hoje principalmente por Andrew Keen, a uma suposta má qualidade dos materiais disponibilizados em blogs não soa nada além de uma tática de FUD. É óbvio e natural que, com a facilidade oferecida pelos blogs para que qualquer um seja um jornalista ou divulgue suas idéias para todo o mundo, muitas das informações disponibilizadas sejam duvidosas e/ou superficiais. Mas é absurdo simplesmente determinar que um conteúdo é superficial e amador apenas por estar em um formato de blog.

Como no nosso dia-a-dia, não confiamos em qualquer coisa que nos falam. Sabemos que há muitos mentirosos por aí, com diversos motivos para mentirem. Somos inteligentes o suficiente para discernir entre um conteúdo apresentado por alguém que verificou os fatos antes, do que alguém que simplesmente joga a informação sem ter certeza do que está falando. O fato de existerem uma massa enorme de blogs que não acrescentam valor ou simplesmente não são confiáveis não deve prejudicar o modelo.

O que acontece é uma seleção natural das minhas fontes de informação. Estou constantemente adicionando novas fontes de RSS de blogs de pessoas com ideias interessantes e ao mesmo tempo removendo alguns que provaram não serem confiáveis ou que não agregam nenhum valor à informação.

Apesar do enfraquecimento do modelo impresso, não dá para dizer que ele morreu. Os dois modelos devem co-existir e atingirem nichos e objetivos diferentes. O que precisa acontecer é uma adaptação dos jornais a esta nova realidade que vem se construíndo. Um bom exemplo disso é o reposicionamento de ninguém menos do que o New York Times, conforme noticiado pelo Tiago Dória com o post O jornal que não é mais jornal. Por outro lado, os jornais brasileiros Folha Online e O Globo servem como mau exemplo, ao tentar enrigecer os seus jornalistas contra as tendências na Internet, conforme noticiado pela Info.

Concluíndo, os blogs são sim uma ótima fonte de informações confiáveis e adaptadas ao nível de cada leitor. Eu já uso blogs e twitter como principal fonte de informação e me sinto tão bem ou melhor informado do que se utilizasse apenas o jornal impresso. Ainda vejo muito espaço para blogs e jornalistas profissionais e independetes crescerem. O que falta apenas é aceitar e testar este novo modelo. Não há nenhum meio melhor de provar isto do que adotando os blogs como fonte de informação.

Por que peer – a formação de pares – é a palavra chave?

Durante estes tempos de transformação econômica e tecnológica, um dos novos paradigmas que surgem é o do compartilhamento. Abrir suas inovações para o público e permitir que eles façam parte do seu desenvolvimento tem provado ser benéfico tanto para a empresa quanto para o público. No vídeo abaixo, é citado o exemplo da Lego, que há alguns anos atrás estava muito próxima de fechar ou ser vendida, mas que ao compartilhar com o público uma das suas maiores inovações, o Lego Mindstorm, renovou seu fôlego e atualmente está em ótima forma.

O segredo parece estar em compartilhar com o público algo que seja de valor para eles, mas que ao mesmo tempo a utilização que farão do seu produto (e o produto que terão como resultado dessa utilização) seja de valor para a empresa. Isto exige um planejamento pela empresa que é muito difícil de ser visualizado. Talvez nem tenhamos disponíveis, ou processados, os dados que precisamos para poder pensar em como se beneficiar desta troca. Por enquanto é preciso primeiro fazer para depois perceber os benefícios.

Com isso, peer, que pode ser traduzido como par, é a palavra chave deste novo paradigma. Saber conectar-se com as pessoas e empresas a sua volta para criar inovação e valor será um grande diferencial nos próximos anos.

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Por outro lado, há vozes contrárias a este movimento. A mais proeminente delas é a de Andrew Keen, que defende avidamente o modelo fechado que vem sendo utilizado nos últimos anos. Keen argumenta que as maiores inovações vem de indivíduos e não de um grande grupo de pessoas colaborando. Também defende que se você é um desses indivíduos com ideias inovadoras, então não deve oferece-las de graça, pois estaria sendo explorado. Este é o mesmo motivo apontado por ele para não colaborar com os projetos propostos por grupos e/ou empresas.

Seus argumentos não estão errados, mas o que falta ao Andrew Keen é a visão do ganho indireto que há nessas práticas. A motivação de alguém para colaborar com um projeto pode não ser apenas financeira (e geralmente não é). Aprendizado, contatos e realização pessoal são alguns dos benefícios que se obtém com frequência ao colaborar. Para muitas ideias, não é possível realiza-las sozinho. Com isso, ao divulga-las, não estaria simplesmente dando de graça, mas sim permitindo que pessoas que se interessam por ela possam ajuda-lo a realiza-la. Você estará influenciando e tornando-se uma referência, o que inevitavelmente trará retorno. Mas isso não significa que toda e qualquer ideia pode ser divulgada sem riscos, como tudo, deve haver um equilíbrio.

No vídeo, Don Tapscott contra-argumenta Keen com uma colocação muito interessante: se no início da era dos computadores pessoais a Apple tivesse aberto o seu sistema operacional para outras plataformas além da escolhida por ela, simplesmente não haveria Microsoft. Pois o sistema da Apple sempre foi muito superior ao Windows, mas os computadores da IBM foram muito mais vendidos. Por causa de um acordo entre Microsoft e IBM, todos os computadores vendidos vinham com Windows. Dessa forma se criou o império Microsoft. Se a Apple permitisse que os usuários que compraram computadores IBM trocassem o sistema operacional para o seu, ela poderia ser muito maior e mais influente que nos dias de hoje.

Outra polêmica é a se as redes sociais são apenas uma nova bolha da Internet ou não. Mesmo que sejam uma nova bolha, podemos nos basear pelo o que aconteceu no estouro da primeira bolha ponto-com. Muitas empresas quebraram, sim, mas o modelo de negócios pela Internet não foi extinto. O que aconteceu foi a sobrevivência do mais forte, do mais apto e adaptado à realidade. O mesmo deve acontecer com as redes sociais. Sua extinção não é plausível simplesmente pelo fato de que elas agregam valor ao dia-a-dia das pessoas. Novamente, Don Tapscott faz outra colocação interessante sobre isso: não construímos mais websites (esse era o modelo da web 1.0), agora construímos comunidades.

Por fim, Tapscott também afirma que para compreender todas essas mudanças é preciso utiliza-las. Todos precisamos criar um blog, participar das redes sociais, manter um Twitter e tudo mais que envolve esse novo paradigma. Assim que utilizarmos, começaremos a compreender o que tanto se fala. O que você acha disso?

Aprender sem esforço

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Aposto que o que mais chamou a sua atenção no título deste post foram as palavras sem esforço ao invés de aprender, não foi? Tudo bem, eu também sou preguiçoso. Em algum momento, todos somos. Ainda mais quando se trata de aprender.

Os tempos de escola, e até mesmo da faculdade, nos fazem associar o aprendizado a algo penoso, que nos tira sagradas horas de lazer. Eu sempre odiei estudar para provas e trabalhos, como qualquer pessoa, mas mesmo assim eu sou o tipo de cara Discovery Channel. Gosto de aprender e conhecer coisas novas, ainda mais se for sem esforço e sem tomar meu tempo de lazer.

O motivo de escrever este post vem de algo que já está na internet há um bom tempo, mas que até então eu não havia vislumbrado todo o seu potencial: os podcasts. Para quem não sabe, um podcast não é nada mais que um arquivo de áudio que em vez de ter uma música tem alguém falando alguma coisa. Há podcasts sobre muita coisa, desde artes até tecnologia, e em várias línguas.

O potencial dos podcasts realmente se revela quando unidos a algum reprodutor digital portátil, como um mp3 player ou um celular. Hoje em dia muitos celulares com um preço acessível já vêm com alto falantes com qualidade suficiente para escutar um podcast sem ter que ficar conectado aos, muita vezes incômodos, fones de ouvido. Assim você pode escutar uma palestra interessante enquanto lava as louças ou limpa a casa.

Se você gostou da idéia, mas não sabe por onde começar, então vou deixar uma dica: o POP!Tech recentemente colocou no ar um site com dezenas de podcasts das palestras do ano passado. São grandes pessoas que falam em 20 min sobre suas idéias e projetos. Os assuntos variam entre antropologia, música, tecnologia, marketing e outros. Segue uma pequena lista de algumas palestras que me chamaram a atenção:

  • Malcolm Gladwell
  • Clay Shirky
  • Matt Mason
  • Nina Jablonski
  • Louann Brizendine
  • Losang Rabgey
  • Ivan Marovic
  • Hasan Elahi
  • Chris Anderson

Outro lugar que possui material de alta qualidade é o TED. Se você nunca ouviu falar do TED, o slogan já diz tudo: ideias que valem a pena espalhar.

Tente fazer isto, aprender coisas novas só traz vantagens. Se conhece outros lugares com bons podcasts sobre qualquer tema, eu ficaria muito feliz se compartilhasse comigo nos comentários.

Update: o Academic Earth também disponibiliza as aulas como podcasts. Outro ótimo lugar para conseguir conteúdo de primeira!

Update 2: o FORA.tv também possui ótimas palestras e permite baixa-las em forma de podcast.

A geração dos Nativos Digitais

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Enquanto viajava para Santa Maria eu escutei a inspiradora palestra que o Don Tapscott deu no CIO Meeting da Info deste ano. O tema da palestra foi a Geração Net (de Internet, não a TV por assinatura), a nossa geração. Resolvi então escrever sobre o que me chamou a atenção nas suas idéias.

Pela primeira vez os jovens sabem mais que os seus pais e chefes. Uma criança mexe com a web e a tecnologia com uma naturalidade assustadora. Muitos pais consideram seus filhos como prodígios até descobrirem que todos os seus amigos também tem a mesma facilidade. Normalmente quem administra os equipamentos eletrônicos em uma casa são os filhos. Esses nativos digitais (como Don chama a nossa geração) estão começando a chegar no mercado de trabalho com força e estão mudando os paradigmas dos imigrantes digitais.

Trabalho, aprendizado e diversão começam a ser uma coisa só. O valor do salário deixa de ser o único dado importante e o quanto vou me divertir e aprender no meu trabalho passam a ter peso na hora de decidir o que fazer. Contar com pessoas talentosas é essencial para desenvolver um negócio de sucesso. Para conquistar as pessoas com talento que estão chegando no mercado de trabalho, o caminho não poderá ser diferente: além do salário, oferecer possibilidades de aprendizado, diversão e, talvez o mais importante, liberdade. Além disto, outras duas palavras chaves para qualquer negócio que queira realmente atingir as pessoas são colaboração e comunidades (ou tribos). Não basta mais ser focado no cliente. O cliente tem que ser estimulado a engajar-se com o seu produto ou serviço.

Na palestra, Don cita o exemplo da Ford nos tempos de Henry Ford, que precisava possuir toda a cadeia produtiva relacionada à produção de um carro para que pudesse construí-los com o menor custo e maior eficiência e qualidade possíveis. A Ford possuía desde as madeireiras, para ter a matéria prima para os painéis dos carros, até empresas de transporte naval para transportá-las. Tudo porque o custo da colaboração era muito alto naquela época. Com a internet, o custo da colaboração está praticamente reduzido a zero. Assim os peers, ou os indivíduos, ganham muita força.

O que antes só poderia ser feito por uma grande organização, que tivesse em seus cofres recursos suficientes para possuir toda a informação e capacidade técnica necessária para desenvolver seu produto/serviço, hoje pode ser feito por uma comunidade de pessoas que colaboram entre si. O faturamento desse produto/serviço, que iria para os comandantes da organização, hoje pode ser dividido entre os indivíduos que compõem as comunidades.

Veja o exemplo da indústria da música. Até poucos anos atrás, para um músico alcançar o sucesso era necessário um contrato com uma grande gravadora, que distribuiria sua música para todo o país ou o mundo. Hoje inúmeras bandas independentes surgem através da divulgação pelas comunidades que gostam do seu estilo. Rapidamente uma música pode viajar o mundo. Assim bandas que antigamente teriam muito mais trabalho para viver da música, hoje podem conseguir isso divulgando seu trabalho pela internet.

Terceirizar os serviços e contar com o talento de pessoas espalhadas por todo o país ou pelo mundo pode aumentar a qualidade de um produto/serviço e reduzir custos. Essa já uma prática relativamente antiga, conhecida e bem sucedida na área de telemarketing e S.A.C., por exemplo. Don também cita o exemplo de uma mineradora de ouro, que conseguiu aumentar o valor de sua empresa em duas vezes depois que fez a loucura de publicar na Internet seus preciosos dados geográficos de minas (que são guardados nos mais seguros dos cofres pelos seus concorrentes) e premiou quem pudesse encontrar ouro lá. Novamente, a liberdade do conhecimento aparece para favorecer a todos.

O que mais, que até então não imaginávamos fazer de forma distribuída, hoje podemos fazer melhor e mais barato? O que mais pode construir comunidades? Será que não podemos, por exemplo, fazer uma festa para as tribos que não são atendidas pelas boates de sua cidade?