Archive for the 'filmes, músicas e livros' Category

Só sei que nada sei – como o acaso subjulga a razão

Acabo de ler o livro do físico Leonard Mlodnow, que fala sobre como o acaso afeta nossas vidas. Antes de contar o que aprendi com esse livro, vou começar contando como ele foi parar em minhas mãos.

Eu estava em Porto Alegre a passeio, em um fim de semana, almoçando com amigos no shopping. Após o almoço, vagando pelo shopping resolvi visitar a loja da Saraiva. Entre os títulos que olhava sem muita pretensão, um deles me chamou a atenção: Rouba-vos uns aos outros. Depois de ler a sinopse e ao que ver o autor do livro, Antônio Carlos Resende, era um conterrâneo de Cachoeira do Sul, de imediato me propus a compra-lo. Então sentei em um dos sofás que haviam na loja e esperei que os outros terminassem suas buscas pela loja. Poucos minutos depois, fazendo alusão aos meus hábitos alcoólicos, a Dani me alcança um livro com título de O Andar do Bêbado. Ao pega-lo, duas coisas me chamaram atenção na capa: um comentário do Stephen Hawking e o subtítulo Como o acaso determina nossas vidas. O nome do maior físico depois de Einstein mostrava que era coisa séria e como sempre gostei da ideia do acaso, decidi compra-lo também. E foi assim, por mero acaso, que um livro responsável por contribuir significativamente para ampliar a minha visão de mundo foi parar em minhas mãos.

Através de uma leitura fluída e agradável, sempre fazendo uso de estudos científicos e histórias reais, Leonard consegue mostrar como nós somos vítimas do acaso diariamente. O nosso maior diferencial como espécie, a razão, mostra-se também uma grande inimiga. Ao fazermos uso da razão para criar conceitos e tomar decisões com uma base muito limitada de dados, frequentemente criamos ilusões e cometemos equívocos. Vou dar um exemplo: na imagem em preto e branco abaixo, o quadrado verde significa tudo o que conseguimos saber em um determinado momento sobre a imagem. Ao ser perguntado sobre qual a cor predominante na imagem, quantos responderiam preto? E quantos responderiam “não sei”?

É com essa mesma razão que julgamos as capacidades e habilidades de uma pessoa tendo como base apenas seus resultados, ou seja, seus sucessos e fracassos. Mlondinow demonstra como uma pessoa habilidosa pode fracassar e como alguém pode obter um grande sucesso por pura sorte. A habilidade tem grande influência no resultado, mas ainda está sujeita ao acaso e por isso só pode ser realmente verificada depois de grandes amostras de sucessos e fracassos. Com isso, prova-se que, acima de tudo, o que realmente vale é a perseverança.

Há incansáveis exemplos de como a perseverança é parte fundamental de grandes conquistas, como na história de ninguém menos que Steve Jobs, contada por ele mesmo no vídeo que postei recentemente. A única certeza que temos é de que vamos fracassar em algum momento. A ideia de que não podemos falhar é absurdamente infantil e ilusória. É por isso que aqueles que acreditam em algo acima de si mesmos (o que eu também chamo de paixão), ao não desistirem, são aqueles que alcançam grandes conquistas e criam novos paradigmas.

Ao mesmo tempo, ter a crença de que bater a cabeça na parede vai fazer nascer dinheiro e ter perseverança nisso não vai adiantar nada. É por causa disso que afirmo que não há regra, não existem fórmulas para a vida e para o sucesso. Nada garante que ir para a faculdade e ter um diploma o fará ganhar muito dinheiro. É ainda mais ridículo assumir que esses passos o trarão a felicidade.

Ao reconhecer a ausência de regras, de verdades absolutas, do certo e o errado, entendo que Sócrates atingiu uma iluminação divina ao proferir a frase: Só sei que nada sei. Aprender a conviver com a incerteza, em constante questionamento e reformulações, sendo flexível às mudanças, é essencial para inserir-se no mundo e na vida. O que torna, ao meu ver, o domínio da certeza e o estreitamento de visões um tremendo exercício de tolice. Nós somos incapazes de conceber a verdade, pois não temos como reunir toda a informação necessária para tirar qualquer conclusão definitiva. Aquele que se fia na certeza estará invariavelmente fadado ao erro.

Isso é apenas um dos devaneios que o livre permite e eu poderia falar muito mais dele, mas é melhor que você tire suas próprias conclusões. Recomendo O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, como um livro que todos devem ler.

Anúncios

Compartilhar arquivos é economicamente benéfico

Pirate Bay - File Sharing

Um artigo recentemente publicado, onde um dos autores é professor da Harvard Business School, expõe argumentos em defesa do compartilhamento de arquivos. O estudo possui uma ênfase maior na indústria fonográfica e começa reconhecendo que houveram grandes perdas nas vendas de CDs. Mas ao mesmo tempo, como eu já havia colocado em um post recente, aponta o mercado complementar como uma fonte de renda que cresceu mais do que as perdas com a venda de CDs.

Mercado complementar

No caso da música, o mercado complementar são os shows e eventos promocionais. O artigo demonstra que após a proliferação da prática de compartilhamento de arquivos a renda com shows aumentaram significativamente. O cálculo é simples: uma boa música torna-se ainda melhor quando associada aos momentos vivenciados em um show ao vivo e, ao mesmo tempo, um show ao vivo torna-se muito melhor se eu conheço as músicas para cantar junto. Disponibilizando as músicas de uma forma mais ampla, mais pessoas conhecem o trabalho de uma banda e mais pessoas ficam dispostas a pagar pelo show. Indo mais além, as vendas de CDs caíram significativamente nos últimos anos, mas por outro lado a venda de IPods e outros PMPs (Personal Media Players) cresceram muito, praticamente ocupando o espaço deixado pelos CDs.

O mercado complementar não é apenas uma característica da música, mas pode ser explorado por qualquer produção cultural. Filmes, por exemplo, chegam a faturar mais com o merchandising do que a bilheteria em si. O cinema propriamente dito é um mercado que já foi o foco dos filmes, mas que hoje passa a ser complementar. Hoje em dia ter uma TV e um sistema de som de qualidade está bastante acessível, o que diminuiu o movimento dos cinemas locais. Para voltar a faturar, os cinemas precisam oferecer um serviço que vá além de apenas mostrar um filme e proporcionar uma experiência mais ampla ao cliente, que o convença de que estar lá para assistir o filme é melhor do que simplesmente assistir o filme em casa. Assim o filme em si deixa de ser o foco.

Quantidade de produções artísticas

O artigo também coloca que o objetivo das leis de copyright é estimular a produção artística e com isso gerar riqueza social (como tudo no papel, é muito bonito, mas sabemos que na prática serve apenas para defender os interesses das grandes empresas do ramo). O compartilhamento de arquivos vai contra as leis de copyright e por isso deveria causar um desestímulo para esse tipo de produção. Mas argumentos são apresentados provando justamente o contrário. Nos últimos anos, o número de artistas, filmes e livros novos publicados por ano cresce muito mais do que na década de 90, época em que o compartilhamento de arquivos ainda era insignificante. Esses números são ainda mais significativos em países onde a “pirataria” é mais agressiva, como Índia, China e Coréia do Sul. A produção de filmes nesses países cresceram muito em comparação com os anos anteriores.

Isso não é surpreendente, pois quem produz material artístico, quer mais é ser lido, visto e ouvido pelo maior número de pessoas possíveis. O compartilhamento de arquivos tem proporcionado exatamente isso, estimulando ainda mais as produções. A troca livre de arquivos na Internet é benéfica para os artistas e para as pessoas. Não existem provas que relacionem diretamente a “pirataria” à quedas no faturamento de produções artísticas.

Não tenho mais dúvidas de que essa prática irá prevalecer e o compartilhamento de arquivos será legalizado em um futuro não muito longe. Devemos ignorar a pressão das corporações do ramo e protestar contra provedores de acesso à Internet que cedem a elas. É uma questão de lutar pelo o que é melhor para a sociedade como um todo.

O artigo completo pode ser lido aqui.

O caso The Pirate Bay: Mais um milestone

É impossível deixar de acompanhar o caso do The Pirate Bay na corte sueca. Este é claramente mais um milestone no movimento a favor do livre compartilhamento de conteúdo pela internet.

O que começou com o falecido Napster e passou por casos como o Kazaa, o caso The Pirate Bay tem uma importância hoje tão grande ou maior do que foi o Napster em sua época. Isto se deve pelo fato de atualmente haver uma consciência geral muito maior a respeito deste tema.

Todos sabemos que se conseguirem derrubar o The Pirate Bay (o que eu duvido), outros surgirão para tomar o lugar. É impossível impedir o compartilhamento de conteúdo pela internet, chega a parecer ridículo tentar. Eu insisto em afirmar que, em vez de tentar criminalizar essa prática, é muito melhor explora-la.

Sem dúvida há meios para os criadores de conteúdo tirar proveito do compartilhamento de arquivos. Com a transformação do conteúdo para o formato digital, perdeu-se o controle sobre a distribuição dos mesmos. É muito fácil a barato replicar a informação e redistribuí-la. Com isso, a forma de capitalizar a criação de conteúdo deve deixar de ser a sua distribuição, como tem sido até hoje, para utilizar meios indiretos, como a utilização de propaganda.

Provavelmente não será mais possível criar grandes impérios como acontece hoje com as grandes da mídia, mas sem dúvida é possível democratizar a criação de conteúdo e permitir que todos possam ganhar com isso. E ganhar suficientemente bem. Há hoje uma grande necessidade de discutirmos formas alternativas de arrecadar dinheiro com o conteúdo livre.

Depende de cada um de nós lutar a favor desta causa, pois não interessa a ninguém mais do que nós mesmos, os usuários, o cidadão comum. E se é do interesse da maioria, não é assim que deveria ser? Cabe também aos com espírito empreendedor desenvolver alternativas de sucesso. E aos usuários, insistir em compartilhar seus arquivos.

Força ao The Pirate Bay!

George Constanza é o cara…

… para não ser. É por isso que sou fã dele. Sempre que tenho uma decisão para tomar eu penso: O que o George faria nessa situação?

Então faço exatamente o contrário. Costuma dar certo..

Filme: Paixão Suicida

Sabe aqueles filmes que tu nunca pararia para assistir em sã consciência? Pois é, há uns dias atrás, na minha tradicional falta de sono, resolvi ligar a tv e peguei esse filme no início. Sorte que só fui ver o título quando já estava na metade.  O filme se passa em uma espécie de limbo, para onde as pessoas vão quando cometem suicídio e conta a história de um cara que se matou por causa da namorada.

Para assistir o filme é preciso abstrair algumas coisas, pois ele é completamente emo a uma primeira vista. Para começar, o título:  Paixão Suicída. Com um título desses, esse filme tem jeito de ser daqueles que ficam em um canto obscuro das locadoras e ninguém retira, mesmo quando, por algum motivo ainda mais obscuro, lêem a sinopse. É preferível pegar um desenho animado sobre esquilos falantes do que um filme com um título desses. Segundo, o personagem principal já tem uma aparência de emo e ainda comete suicídio por causa da namorada. Acho que só com esses dois pontos já provei o motivo de dizer que ninguém assistiria esse filme em sã consciência. Mas as aparências enganam.

Apesar de todos os indícios levarem à conclusão de ser um filme emo, o tema não é esse, é apenas uma ambientação de mal gosto.  Se conseguir abstrair esses detalhes, verá que é mais um filme non-sense do que qualquer outra coisa.  E como todo bom non-sense, sempre há algo a ser dito.  Foi por isso que gostei dele. É um daqueles filmes baseados em livros (uma história curta de Etgar Keret chamada Kneller’s Happy Campers)  que são produzidos pelo conteúdo e não pelo potencial de bilheteria. O filme é interessante porque ajuda a pensar um pouco por um ponto de vista diferente. Se gosta de non-sense, recomendo.