Reativação

Poucos dias depois de completar 3 anos desde a minha última postagem neste blog, lembro-me da sua existência. Releio os posts e percebo as mudanças que sofri. Ao mesmo tempo, percebo o valor de ter as ideais e pensamentos gravados no tempo.

Minha memória é fraca. Me surpreendo pela idade e pelo tempo que mantive o blog ativo. Na medida em que o tempo passa e me transforma, esqueço até mesmo quem eu fui. Olhar para trás e ver as ideias e interesses que eu tive me ajudam a lembrar como me tornei quem sou. Algumas ideias se enraizaram, outras foram descartadas como uma experiência mal sucedida. Acho graça na empolgação do eu do passado ao concluir coisas que hoje tenho como óbvias. Relendo os posts também percebo que os de mais valor são aqueles que falei sobre a única coisa a qual eu realmente tenho autoridade: eu mesmo e meus pensamentos.

É por este motivo que decido reativar o blog. Desta vez meus interesses e pensamentos são diferentes, resumidos talvez em economia, política e filosofia. Diferentemente dos posts do passado, não pretendo formar nenhuma opinião senão a minha própria e tenho apenas uma pessoa como público alvo: o eu do futuro. O único motivo de tornar público meus pensamentos é na vaga esperança de encontrar oposição de alguém que caia aqui pelo acaso e assim valida-los pelo debate.

Deixo como referência para os próximos posts os dois do passado que julgo de maior valor: Amiga Silenciosa e Pensamentos aleatórios sobre a vida, a felicidade e a solidão.

Amiga Silenciosa

Nos encontramos pela primeira vez há alguns meses atrás. Sem dar muita bola um para o outro, imaginávamos que um dos dois logo sumiria, como de costume. Mas isso não aconteceu; com o tempo, acostumamos com a presença um do outro.

Nos encontrávamos praticamente todos os dias, pois inevitavelmente frequentaríamos o mesmo lugar. Ela estava sempre no mesmo canto, sozinha, apenas variando suavemente de posição. Sabiamente isolava-se de uma forma que eu não podia toca-la, ao menos sem sair da minha própria rotina. Poucas vezes chegamos próximo o suficiente para um contato; e nestas raras ocasiões eu apenas cuidava para não perturba-la. Nunca trocamos uma palavra sequer.

O tempo continuou a passar e o que era apenas uma familiaridade passou a se tornar uma espécie de respeito mútuo. Cuidávamos um do outro, cada um a sua maneira. De tempos em tempos eu a procurava com os olhos e me tranquilizava toda vez que a encontrava, quieta e sozinha, no seu canto habitual. Mesmo sem jamais termos diretamente direcionado nossas ações um ao outro, nos relacionávamos.

Este ser com que convivi durante os últimos meses era uma frágil aranha, de pernas finas e compridas, que elegeu o canto do meu quarto onde guardo algumas tralhas como seu lar. Sem nunca causar nenhum tipo de transtorno (a pouquíssima sujeira era concentrada em um ponto bastante específico), alimentava-se dos insetos voadores que estão sempre a zunir e incomodar, fazendo-me grande favor. Por isso tomava todos os cuidados para não afasta-la de lá. Eu gostava dela.

Porém hoje a nossa rotina foi perturbada. Ansioso com o sol que não se revelava há dias, resolvi abrir a janela do quarto logo após acordar. Evento raro, pois sequer costumo abrir esta janela, ainda mais durante a semana. Suponho que tamanha claridade em um momento tão incomum tenha afetado a aranha, que resolveu esconder-se em um ambiente que julgou mais acolhedor naquela hora: o banheiro.

Pois quando retornei do trabalho e fui tomar um banho, lá estava ela ela, presa no box junto comigo, desesperada com tanta água. Tentei remove-la para um lugar mais seco, mas ela orgulhosamente rejeitou minhas ofertas de ajuda. Por fim, após uma sequência de más decisões, acabou cedendo naquele ambiente que subitamente tornara-se tão inóspito.

Assim perdi uma discreta companheira, pela qual estranhamente me vi apegado. Não sei bem porque resolvi escrever este texto, se em memória da minha amiga silenciosa, ou se pela perplexidade que fiquei ao me sentir triste depois de me dar conta de que ela não estará mais naquele canto que eu já havia atribuído a ela. É curioso como os sentimentos e relações são tão mais sutis do que julgamos.

Liberdade, seguraça e controle na Internet

O debate sobre o controle na internet sempre leva para uma discussão polêmica. Existem os que defendem a ampliação do controle como forma de aumentar a segurança e os que enxergam no controle o cerceamento da liberdade e a violação de direitos fundamentais, como o direito à privacidade. O problema nos debates atuais, como o que foi recentemente veiculado pela MTV, é que está havendo apenas uma exposição dos pontos defendidos por cada um dos lados, sem a construção de um diálogo e portanto sem a argumentação e contra-argumentação adequada para a formação de opinião.

A internet é um canal importantíssimo de troca de informação e conhecimento, ao mesmo tempo que permite conectar pessoas virtualmente em qualquer lugar do mundo à qualquer hora e em tempo real. Os potenciais proporcionados por tamanha conexão entre pessoas está recém começando a ser explorado. Esse poder, que passa a ser diluído entre cada indivíduo, e não mais entre poucos representantes, pode ser a fagulha para uma organização social mais justa e democrática. É devido a todo esse potencial inexplorado que a questão do controle na internet se torna tão ampla e multidisciplinar, envolvendo diretamente áreas como a sociologia, economia, política e as ciências que constroem as tecnologias que realizam a internet. É muito difícil, senão impossível, abranger tudo que está relacionado com esse assunto em um texto de poucos parágrafos, por isso vou focar aqui apenas na relação controle-segurança-privacidade.

Os defensores do controle constroem sua argumentação sobre afirmações que apelam para o senso comum, apoiando-se principalmente no discurso de promover maior segurança. A premissa mais utilizada é a de que se não houver controle, não há como identificar infratores da lei, favorecendo a execução de crimes, como fraudes e roubo de identidade. A partir daí é possível que o discurso ainda vá além, atacando a própria liberdade do indivíduo. Se não há segurança, o cidadão não poderá usufruir de toda a sua liberdade pois irá sentir-se ameaçado ao realizar ações que o tornariam vulneráveis a criminosos. Isso quando não utilizam o exemplo que se tornou sinônimo de crime na internet: pedofilia. Essa argumentação é apelativa ao senso comum porque a segurança é uma necessidade, sim, mas o cuidado deve estar em associar o controle com segurança.

Argumentos de quem defende a ampliação do controle:
  • Para ter segurança é preciso ter controle
  • Não existe liberdade sem segurança
  • Sem logs não há como rastrear um criminoso, o que estimula o crime

A ampliação do controle significa saber quem esteve onde, fazendo o que e quando. No mundo real, isso equivale a sempre que você for se deslocar da sua casa para o trabalho, um agente do governo terá que verificar sua identidade e registrar de onde vem e para onde vai. A mesma coisa quando sair do trabalho e passar no mercado ou ir para qualquer outro lugar, podendo inclusive ter acesso ao que você comprou. Tudo isso para garantir que se você cometer um crime, será encontrado. Mas muitos podem dizer: quem não deve não teme. O problema é que todos nós, em algum momento, devemos. Eu ficaria muito surpreso se você nunca baixou um arquivo protegido por direito autoral ou nunca utilizou um software sem pagar as devidas licenças de uso (mas isso é realmente um crime, ou uma transformação causada pela própria sociedade em prol de seus interesses?). Não é atoa que um dos maiores interessados na ampliação do controle da internet é a indústria do copyright, como as associações de produtores de filmes e música. Esse é apenas um exemplo simples do cotidiano. Além disso existem situações em que a falta de privacidade causa prejuízos ainda maiores para a sociedade, como no caso de ativistas que podem ser localizados e censurados com muito mais facilidade. Infelizmente a censura ainda é uma realidade hoje, com a frequente censura de blogs brasileiros, especialmente quando revelam informações sobre figuras políticas.

Por outro lado, a internet é rastreável por natureza. Para que possa existir a rede de computadores é necessário saber a origem e destino de cada mensagem. A diferença é que as mensagens trafegam com um relativa anonimicidade, suficiente para garantir a privacidade básica de um indivíduo. Porém um monitoramento mais ativo, comparável à uma escuta telefônica, permite que um par transmissor e receptor de uma mensagem possa ser identificado. Portanto é possível que você tenha sua privacidade e que ao mesmo tempo um criminoso possa ser identificado após um processo de investigação. De qualquer forma, um maior controle da internet não evitará que os crimes aconteçam, pois os criminosos sempre darão um jeito de se tornarem anônimos. Se colocam câmeras nos bancos, eles usam máscaras. Enquanto houver uma pessoa no processo, haverá um risco de segurança, não importa o quão sofisticado seja o sistema.

Argumentos de quem é contra:
  • Controle invade a privacidade
  • Facilita o acesso a informações privadas por pessoas mal intencionadas
  • Estimula a censura
  • Favorece apenas interesses corporativistas

Com isso podemos questionar se a segurança de uma internet controlada está realmente do lado da sociedade. A sociedade estará mais segura contra crimes, ou a indústria terá mais formas de defender seus interesses, podendo processa-lo com mais facilidade? Privar o direito de liberdade do cidadão em nome da segurança é como proibir pesquisas de química e biologia porque podem levar à construção de armas bioquímicas com potenciais de destruição enormes. Mas todos sabemos que os avanços e benefícios para a sociedade de tais pesquisas são muito maiores do que o risco da construção de armas – além de gerar rios de dinheiro para os detentores de patentes. Da mesma forma, o direito de trocar informações de forma anônima e se comunicar livremente na internet podem levar a avanços ainda não imaginados, mesmo que algumas pessoas possam usar essa liberdade para recrutar terroristas ou realizar fraudes. Nenhuma medida de controle irá impedir isso, o problema não está na tecnologia, mas nas pessoas. E a internet potencializa justamente o trabalho entre pessoas que querem fazer um mundo melhor trabalhando em prol das pessoas.

Só sei que nada sei – como o acaso subjulga a razão

Acabo de ler o livro do físico Leonard Mlodnow, que fala sobre como o acaso afeta nossas vidas. Antes de contar o que aprendi com esse livro, vou começar contando como ele foi parar em minhas mãos.

Eu estava em Porto Alegre a passeio, em um fim de semana, almoçando com amigos no shopping. Após o almoço, vagando pelo shopping resolvi visitar a loja da Saraiva. Entre os títulos que olhava sem muita pretensão, um deles me chamou a atenção: Rouba-vos uns aos outros. Depois de ler a sinopse e ao que ver o autor do livro, Antônio Carlos Resende, era um conterrâneo de Cachoeira do Sul, de imediato me propus a compra-lo. Então sentei em um dos sofás que haviam na loja e esperei que os outros terminassem suas buscas pela loja. Poucos minutos depois, fazendo alusão aos meus hábitos alcoólicos, a Dani me alcança um livro com título de O Andar do Bêbado. Ao pega-lo, duas coisas me chamaram atenção na capa: um comentário do Stephen Hawking e o subtítulo Como o acaso determina nossas vidas. O nome do maior físico depois de Einstein mostrava que era coisa séria e como sempre gostei da ideia do acaso, decidi compra-lo também. E foi assim, por mero acaso, que um livro responsável por contribuir significativamente para ampliar a minha visão de mundo foi parar em minhas mãos.

Através de uma leitura fluída e agradável, sempre fazendo uso de estudos científicos e histórias reais, Leonard consegue mostrar como nós somos vítimas do acaso diariamente. O nosso maior diferencial como espécie, a razão, mostra-se também uma grande inimiga. Ao fazermos uso da razão para criar conceitos e tomar decisões com uma base muito limitada de dados, frequentemente criamos ilusões e cometemos equívocos. Vou dar um exemplo: na imagem em preto e branco abaixo, o quadrado verde significa tudo o que conseguimos saber em um determinado momento sobre a imagem. Ao ser perguntado sobre qual a cor predominante na imagem, quantos responderiam preto? E quantos responderiam “não sei”?

É com essa mesma razão que julgamos as capacidades e habilidades de uma pessoa tendo como base apenas seus resultados, ou seja, seus sucessos e fracassos. Mlondinow demonstra como uma pessoa habilidosa pode fracassar e como alguém pode obter um grande sucesso por pura sorte. A habilidade tem grande influência no resultado, mas ainda está sujeita ao acaso e por isso só pode ser realmente verificada depois de grandes amostras de sucessos e fracassos. Com isso, prova-se que, acima de tudo, o que realmente vale é a perseverança.

Há incansáveis exemplos de como a perseverança é parte fundamental de grandes conquistas, como na história de ninguém menos que Steve Jobs, contada por ele mesmo no vídeo que postei recentemente. A única certeza que temos é de que vamos fracassar em algum momento. A ideia de que não podemos falhar é absurdamente infantil e ilusória. É por isso que aqueles que acreditam em algo acima de si mesmos (o que eu também chamo de paixão), ao não desistirem, são aqueles que alcançam grandes conquistas e criam novos paradigmas.

Ao mesmo tempo, ter a crença de que bater a cabeça na parede vai fazer nascer dinheiro e ter perseverança nisso não vai adiantar nada. É por causa disso que afirmo que não há regra, não existem fórmulas para a vida e para o sucesso. Nada garante que ir para a faculdade e ter um diploma o fará ganhar muito dinheiro. É ainda mais ridículo assumir que esses passos o trarão a felicidade.

Ao reconhecer a ausência de regras, de verdades absolutas, do certo e o errado, entendo que Sócrates atingiu uma iluminação divina ao proferir a frase: Só sei que nada sei. Aprender a conviver com a incerteza, em constante questionamento e reformulações, sendo flexível às mudanças, é essencial para inserir-se no mundo e na vida. O que torna, ao meu ver, o domínio da certeza e o estreitamento de visões um tremendo exercício de tolice. Nós somos incapazes de conceber a verdade, pois não temos como reunir toda a informação necessária para tirar qualquer conclusão definitiva. Aquele que se fia na certeza estará invariavelmente fadado ao erro.

Isso é apenas um dos devaneios que o livre permite e eu poderia falar muito mais dele, mas é melhor que você tire suas próprias conclusões. Recomendo O Andar do Bêbado, de Leonard Mlodinow, como um livro que todos devem ler.

Apropriação digital e o desenvolvimento social

Enquanto olhamos com otimismo as mudanças que o mundo digital tem proporcionado, milhões de pessoas continuam sem poder usufruir deste mundo. As pessoas já sabem disso e é por essa razão que falam de inclusão digital e de como isso é uma parte importante no processo de inclusão social. Mas utilizar o termo “inclusão” para isso não me parece ser o mais apropriado, a realidade demanda muito mais do que inclusão. E um dos caminhos é a apropriação digital.

A diferença que faço entre apropriação e inclusão parte do princípio de que ter acesso e saber usar, ou seja, apenas a inclusão, não é o suficiente. O verdadeiro potencial se mostra quando as pessoas, além de saberem usar, forem capazes de criar, comunicar e se mobilizar através do mundo digital. Além disso, a apropriação digital está fortemente enraizada junto aos conceitos de bem comum, que são muito bem representados por iniciativas como o creative commons e o mundo do software livre.

Por isso, o desafio de promover a apropriação digital é muito maior do que a inclusão, pois não basta apenas entregar um computador nas mãos das pessoas. É preciso educa-las não apenas para saber onde e como clicar nas coisas, mas principalmente em como gerar conteúdo a partir da tecnologia. Também há o desafio de educar para desprender-se da propriedade intelectual e aceitar que o conhecimento é direito de todos, ao mesmo tempo em que é preciso educar para utilizar o conhecimento ou conteúdo disponível, agregar o seu conhecimento ou conteúdo e então retorna-lo para a comunidade. Isso requer um repensamento dos próprios conceitos de valor, recompensa e status. A partir daí a criação de cultura, sua difusão e a produção intelectual serão potencializadas a um nível nunca antes previsto. Através dos meios digitais a criação de conteúdo torna-se acessível para todos, o que permite um enriquecimento cultural dinâmico e democrático. É por isso que a tecnologia e o mundo digital conectado tornaram-se tão importantes para a sociedade como um todo.

Acredito ser através da educação, da produção intelectual e cultural que se criam as bases de uma sociedade pacífica e produtiva. O efeito que a apropriação digital proporciona em uma comunidade organizada sobre os conceitos de bem comum me intrigam. É por esta razão que a partir de hoje eu tomo como desafio a educação e difusão desses conceitos. Para isso eu tomo como base um grupo de pessoas que sabem muito bem o que essas ideias significam para promover o verdadeiro desenvolvimento social: o coletivo de metareciclagem.

Desafios do Brasil Digital

Durante os dias 18 à 21 de novembro eu tive a sorte e o prazer de estar no Fórum da Cultura Digital, realizado pelo Ministério da Cultura em São Paulo. Fui convidado a participar por fazer parte da comunidade online e, de alguma forma, estar presente nas discussões relevantes ao Fórum. O Fórum estava organizado em cinco eixos principais: 1) arte digital, 2) comunicação digital, 3) economia da cultura digital, 4) infraestrutura para a cultura digital e 5) memória digital. Um resumo do que foi produzido neste evento pode ser lido na Carta da Cultura Digital Brasileira.

Durante o evento eu pude conhecer pessoas e histórias fantásticas, que realmente me inspiram a acreditar no Brasil. Mais uma vez ficou claro como há pessoas capazes e comprometidas em construir um país melhor. Aprendi muito com todos que tive o prazer de conversar.

Apesar disso, o Fórum foi apenas mais um movimento na batalha para promover a inclusão social/digital e uma melhor distribuição de riqueza, tanto material quanto cultural. O maior resultado foi o destaque dos pontos que nós, como sociedade, devemos ter atenção:

Maior flexibilidade das leis de propriedade intelectual – é indiscutível que o modelo atual favorece apenas o intermediário, sem servir para o seu propósito atual, que é de estimular a criação.

Neutralidade da Rede – os provedores de acesso não podem filtrar e controlar o conteúdo trafegado. Ao mesmo tempo, os intermediários não podem ser responsabilizados pelo conteúdo que passa por suas redes.

Acesso universal à banda larga – o Brasil é um dos países com o pior custo/benefício de banda no mundo e apenas uma pequena porção da população tem acesso à banda larga. É indispensável a intervenção do governo para regularizar essa situação. Isso envolve o fornecimento de infra-estrutura de comunicação digital pelo Estado.

Os meios de garantir essas questões estão sendo disponibilizados. Está em andamento o Marco Civil Regulatório da Internet, as discussões sobre propriedade intelectual e o plano de banda larga do governo. É imprescindível a fiscalização de cada um de nós sobre essas questões. Devemos prestar atenção sobre as decisões tomadas e garantir que estejam a nosso favor. O governo por si só é incapaz de realizar qualquer mudança significativa sem a pressão do povo. A nossa arma é o barulho e a união a nossa força, devemos fazer uso dela.

Pensamentos aleatórios sobre a vida, a felicidade e a solidão

Ultimamente meu desprezo pela TV tem chegado ao ponto de não querer mais liga-la. Não estou a fim de ler nem jogar e o MSN é sempre o mesmo do mesmo. A única coisa que não dispenso é a música. Em uma noite quente de primavera eu pego uma Heineken da geladeira. A última Stella estava congelada. Olhando para o horizonte sobre a cidade em uma noite estrelada eu me ponho mais uma vez a refletir.

A vida é incrível e nem sempre nos damos conta disso. Mesmo sendo jovem, é revigorante pensar nas dificuldades que superamos, os amores e amigos que conquistamos e também os que perdemos. Pessoas que o influenciaram e as que influenciou. Que grandes conquistas tivemos e quantas outras ainda temos para realizar. Ao ver nosso presente através de um ponto de vista mais amplo, até mesmo os problemas que estamos enfrentando tornam-se uma inspiração. Podemos vislumbrar os objetivos que ainda temos que traçar para continuar com uma vida excitante.

Momentos como esse são a fonte da minha sanidade, pois me ajudam a descobrir de onde vim, onde estou, onde quero chegar e qual deve ser o meu próximo passo. Mas ao mesmo tempo são a fonte da minha loucura, pois percebo que a vida não possui uma regra. Os dogmas e padrões estabelecidos pelo senso comum são superficiais e transitórios. A felicidade é subjetiva e, principalmente, intangível. Sinto que erra aquele que a tem como meta, que acredita que irá conquista-la ao atingir determinado objetivo, conforme muitas vezes é prometido por alguma convenção social. A felicidade é intangível porque não é algo que será alcançado de fora, ela deve vir de dentro. A significativa diferença está em um detalhe sutil: não trata-se de ter, mas sim, de ser. O autoconhecimento, atingido através da reflexão, posicionando-se em um ponto do tempo-espaço da história da nossa vida, serve como força de ignição para meu bem-estar.

Quando ocupamos nossas mentes com qualquer banalidade que nos oferecem, temedo o sentimento de solidão e tédio, somos afastados do autoconhecimento que precisamos. As nossas mentes são gradativamente esvaziadas de conteúdo próprio, deixando-nos viciados no conteúdo fútil entregado. Funciona como uma droga que nos degrada a cada dia, preenchendo apenas os bolsos de quem lucra com a nossa ignorância.

Encarar a solidão e ficar confortável ao estar apenas comigo mesmo é tão necessário para o equilíbrio da vida como trabalhar ou ter amigos. Assim como entender que ninguém poderá dizer o que fará sentir-me bem, muito menos uma propaganda da Coca-cola. Prender-se a paradigmas é limitar o espaço em que poderei desenvolver minha felicidade, onde muitas vezes o terreno mais fértil está além das barreiras sutis, impostas até por mim mesmo. Portanto, superar meus limites é um desafio que tento encarar a cada dia.

Com isso eu não estou dizendo que você deva defenestrar sua TV e ir para um templo zen-budista. Até hoje nenhum radicalismo me provou ser saudável. Sugiro apenas que, se já não o faz, dedique sem medo um tempo sozinho e sem nenhuma distração para seus pensamentos, como TV ou Orkut. Ao procurar por distração, busque também os conteúdos, pessoas e ideias fascinantes que estão espalhados por aí em livros que não são best-sellers, filmes que não vão para o cinema, músicas que não tocam na rádio e ideias que não são proferidas por pessoas populares. Que a partir desses variados pontos de vista reflita e construa as suas próprias ideias, alimentando-as com humildade. E que ao mesmo tempo não esqueça de compartilha-las.